Para os entusiastas de boa bibliografia, recomendo fortemente O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir. Infelizmente não consegui concluir a leitura, mas o pouco que li fez com que eu entendesse muitas coisas sobre o porquê da posição da mulher na sociedade. A autora em questão faz uma bela reflexão, usando os parâmetros biológicos, psicanalíticos e históricos.
Enfim, quis usar de Beuavoir como ponto de partida teórico. Se pensarmos bem, ela usa o termo segundo sexo justamente para determinar a posição ocupada pela mulher, como sexo submetido ao masculino. De tal forma que a afirmação do feminino se faz necessária diante do masculino, o qual não apresenta a mesma necessidade. Vou usar um exemplo: quando falamos em policial, nossa mente automaticamente pensa em um homem fardado, certo? Para que possamos dar a entender à outra pessoa que se trata de uma mulher, precisamos dizer que se trata de uma policial feminina.
Você deve estar perguntando onde quero chegar com isso. Simplifico: Vivemos em uma sociedade onde, para que uma mulher exista, socialmente falando, necessita estar atrelada a um homem. Sim, garota que está lendo a essa postagem e está me odiando nesse momento; é real, por mais que tentemos negar. Mesmo quando falamos do "Bra-Burning", que é icônico na questão feminista, ou das várias conquistas de sufrágio feminino no século XX, o fato é que a mentalidade em que estamos inseridos, sejam homens ou mulheres, faz com que mesmo a mais bem sucedida das mulheres não esteja "completa" se não estiver casada e com filhos, considerado a maior realização de uma mulher ainda nos dias de hoje.
Veja bem, não estou dizendo que eu não deseje isso. Pelo contrário, em minhas constantes conversas com a Todinho sempre falamos de como queremos nosso futuro e ambas somos, como costumamos dizer, clichês nessa parte. E, até por isso, de forma nenhuma posso condenar quem possua as mesmas aspirações.
A grande questão que quero colocar aqui para reflexão é: por quê uma mulher não pode ser considerada suficiente por si só? Nesse caso, a realização no campo emocional-amoroso seria apenas um complemento, e não o que a define.
Novamente retorno à Simone de Beauvoir. Quando ela analisa os aspectos biológicos da mulher, percebemos como ela lista a função da mesma em relação ao seu útero. Sim, eis a questão da nossa importância, como se fosse nosso único e exclusivo fim em termos biológicos: a perpetuação da espécie.
Se pensarmos nesses termos, o psicanalítico, o histórico e até o sociológico se justificam. Quero dizer, uma vez que se determina que a função mor da mulher dentro da sociedade, inconscientemente (ou conscientemente em alguns casos) essa mesma sociedade "condena" (silenciosamente ou não) aquela que não cumpre ou demora a cumprir a função que lhe foi biologicamente designada.
Em termos práticos, quero citar alguns exemplos que certamente alguma garota que esteja lendo essa postagem já deve ter sido vítima:
- Aquela festa de família ou aquela visita inesperada de um membro de sua família (geralmente uma tia): diga ou não se ela já não lhe perguntou se você está namorando?
- Aquele momento em que você está numa rodinha de garotas no seu trabalho: alguma vez já ficaram "horrorizadas" pelo fato de você não estar namorando ou não ser casada? Automaticamente já perguntaram sua idade?
- Aquele momento em que você orgulhosamente fala de sua carreira para sua família: já fizeram a famosa questão "e quando você terá filhos?"
- Aquele momento em que você está atolado com os estudos da faculdade ou tentando uma promoção, sem tempo para vida social: alguém de sua família já questionou sua sexualidade?
Enfim, listei algumas situações vividas por mim ou por pessoas que conheço. Creio que você se identificará com uma ao menos.
Retomo a questão colocada acima: por quê uma mulher não pode ser autosuficiente?
Usei acima bases teóricas para justificar como e porque a sociedade enxerga a mulher de uma determinada maneira. Mas o que quero realmente enumerar aqui é o fato de que nós, garotas, precisamos ter noções dessas coisas para que possamos combater esse tipo de mentalidade. Veja bem: não prego que você vá para uma praça, queime sutiã ou coisa parecida. Como mencionei acima, certas práticas feministas não me convencem, e muito menos creio que elas funcionem apropriadamente.
O que quero propor nessa postagem é que você, estando ciente disso, busque a sua realização, independente da sociedade que a certa. Quer ter uma carreira? Faça. Quer casar? Case. Ter filhos? Por quê não? Quer ter tudo isso? Uau. Ninguém melhor que você para saber de seus anseios e expectativas para o futuro.
Não deixe que digam a você que deve fazer isso ou aquilo. Em contrapartida, não pense que a sociedade se dobrará ao seu querer: a especialidade dela é apontar o dedo para sua cara sempre. Mas você deve fazer o que seus sonhos e anseios lhe ordenarem.
Sensacional esse texto e - infelizmente - repleto de verdades que continuam sendo parte de nossa sociedade e nossas vidas mesmo depois de Beauvoir ter jogado luz sobre o breu. A parte que descreve os diversos cenários enfrentados pela mulher moderna então? Não me identifico com uma situação apenas, mas com todas as alternativas. Seria cômico se não fosse trágico.
ResponderExcluirPois é, Liv, infelizmente, como diz meu professor, a mentalidade é a última que se modifica. E por isso vivemos tais questões mesmo depois de um mundo tão diferente que vivemos.
ExcluirObrigada pelo comentário, querida <3
Post perfeito, principalmente a conclusão: "Não deixe que digam a você que deve fazer isso ou aquilo".
ResponderExcluirQuero ter tudo tb, mas na MINHA hora, não na hora q os outros querem.
Foi mais ou menos a conclusão que cheguei enquanto escrevia: sabe, chega de termos que ser determinadas pela sociedade. Nós devemos determinar.
ExcluirObrigada, Leds <3